
Enderson Moreira diz ter "obsessão por vitórias"
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Lauro Alves / Agencia RBS
Enderson Moreira, 42 anos, se diz um observador, "que espera para
chegar no ambiente e não gosta tanto de chamar a atenção". Nada estranho
para alguém que nasceu em São Paulo e com apenas 20 dias mudou-se com
os pais para Belo Horizonte. Os mineiros, sabe-se, são discretos.
Há momentos, contudo, em que o técnico do Grêmio se transforma. É quando está á beira do gramado, comandando a equipe.
— Sou muito emocional. As pessoas acham que sou tranquilo, mas, na beira do campo, sou uma energia muito forte — define-se.
Exigente, ele promete uma equipe competitiva, sem abdicar de um
futebol de qualidade. Algo que tentava fazer no Venda Nova, clube amador
de Belo Horizonte.
— Eu jogava de volante, mas com muitas qualidades. Sabia passar bem a bola (risos).
Zero Hora — Você se considera preparado para a cobrança forte por títulos?
Enderson Moreira —
Difícil falar do que vamos enfrentar pela frente. Mas me preparei para
isso. Nos clubes de Minas, também não se pode perder. Mas nunca vi
rivalidade como a daqui, a forma como as pessoas são apaixonadas por seu
clube. Em Belo Horizonte, os torcedores convivem muitíssimo bem, apesar
das diferenças. Aqui, vejo coisas que não imaginava. No futebol
brasileiro, a equipe tem que ganhar sempre. Nesses 15, 16 anos de
treinador, me preparei também para os momentos de turbulência, que fazem
parte do nosso crescimento.
ZH — O Grêmio de Enderson será um time diferente daquele visto pelo torcedor no ano passado?
Enderson —
Acredito que sim. Cada treinador tem uma concepção de jogo. Não dá para
ser a mesma coisa que Renato (Portaluppi) e Vanderlei (Luxemburgo)
foram. Alguma característica diferente a gente vai agregar. Nossa ideia é
ter uma equipe competitiva, que possa marcar bem sem a bola e jogar
quando tiver a posse. Muitas vezes iremos jogar bem e perder, muitas
vezes iremos jogar mal e ganhar. Tenho em mãos uma equipe qualificada,
com jogadores de altíssimo nível, em condições de enfrentar de igual
para igual qualquer equipe do Brasil ou da América do Sul, em qualquer
estádio e em qualquer competição.
ZH — A amostragem ainda é pequena, mas o torcedor gostou do
desempenho contra o Aimoré. Você acha que o Grêmio está preparado para
enfrentar as equipes mais fortes na Libertadores?
Enderson —
Viemos de uma equipe pronta. Não a pegamos do zero. Não estou pegando
uma equipe sem treinamento, ela já tem a bagagem do Vanderlei e do
Renato. Agora, estou colocando alguns outros quesitos que, para minha
ideia de jogo, são importantes. Mas ainda vamos passar por muitas
dificuldades. Temos que ver como vai ser a resposta quando sair atrás do
placar, ou vir de uma derrota e ter de reagir já no próximo jogo. Na
primeira partida, a equipe deu demonstração de jogo equilibrado, usando
bem os lados do campo, marcação forte, transição rápida, aspectos que
acho muito interessantes na formatação.
ZH — A saída tumultuada do Inter o estimula mais a querer
vencer no Grêmio ou aquilo já ficou no passado (em 2011, Enderson foi
demitido do Inter B pelo diretor Roberto Siegmann)?
Enderson —
Não houve tumulto, não houve nada de excepcional. Havia um profissional
à frente de um projeto e um diretor que achou que era o momento de
interromper. Vi isso como uma coisa mais natural. Na verdade, contribuiu
para que eu pudesse acelerar o meu processo de amadurecimento e virar
treinador de equipe profissional. Foi um empurrão. Eu poderia ficar aqui
acomodado na base mais dois, três anos. Aquilo fez com que eu entrasse
mais rapidamente no mercado e dali para a frente minha carreira foi
sempre evoluindo, eu pude conquistar mais espaços.
ZH — Seu estilo é totalmente diferente de Vanderlei
Luxemburgo e Renato Portaluppi, que tinham o perfil do boleiro. Como
você se posiciona perante os jogadores?
Enderson — É difícil
fazer qualquer tipo de comparação. Minha conduta é de proximidade com
os jogadores, com uma certa distância. Eu tenho bom contato com eles,
conversamos, mas mantemos a distância necessária para que eles saibam
realmente identificar que eu valorizo o trabalho, que estou muito atento
a questões profissionais, que exijo o máximo para que ele possam render
o máximo possível.
ZH — Que marca você pretende deixar no Grêmio?
Enderson —
A marca de uma equipe bem organizada, que entre em campo sabendo o que
tem de fazer, que tenha, alegria de jogar uns com os outros. Que
possamos demonstrar isso ao torcedor, uma equipe que está fazendo de
tudo para merecer a vitória, sempre se dedicando.
ZH — E que, de preferência, erga um troféu ...
Enderson —
Eu acho que a gente só sobrevive no mercado se conquistar. Não há outra
saída. Não há alternativa B, C ou D. Só há uma, que são as conquistas.
Espero que haja taça. Senão, provavelmente não estarei aqui no próximo
ano para poder conversar com vocês novamente (risos)
ZH — Cite um modelo de treinador.
Enderson —
Tenho imensa admiração pelo "seu" Ênio Andrade. Foi com quem eu mais me
identifiquei na vida, mesmo não o conhecendo. Eu via coisas muito
inteligentes da parte dele. Depois, confirmei isso com Luís Fernando
(Luís Fernando Rosa Flores, um de seus auxiliares, que foi jogador de
Ênio Andrade). Ele falava que era um treinador muito tático, que
enxergava bem, fazia mudanças durante o jogo. "Seu" Ênio sempre
conquistou títulos maravilhosos, às vezes com equipes mais limitadas,
que conseguia fazer jogar em alto nível. Meu objetivo é ser um treinador
que também possa enxergar por onde os jogadores devam caminhar.
ZH — Algum outro nome?
Enderson — Tenho uma
admiração enorme pelo Felipão. Acho um treinador de altíssimo nível. Às
vezes, falam que ele é só motivador, que tem o vestiário sob controle.
Mas ele é muito tático, nos surpreende constante com algumas questões.
E, às vezes, não valorizam esse lado.
ZH — Você procura deixar bem claro que não quer deixar passa a
ideia de ser um teórico do futebol, embora seja respeitado por seu
conhecimento tático ...
Enderson — Eu não teria problema
nenhum em passar essa imagem, por ser formado em Educação Física. Mas
ela não condiz muito com o meu dia a dia. Por essência, por ter jogado,
sei muito o que é um vestiário, as ambições de um jogador. Sempre tento
pegar a teoria e transformá-la em uma maneira bem prática e objetiva de
trabalhar. Trabalhei muitos anos com a base, sei o que buscam e têm como
objetivo. Então, não tenho essa coisa de querer ensinar futebol para
ninguém.
ZH — Porque os treinadores brasileiros não se dão bem na Europa?
Enderson —
A língua é um aspecto limitador. São poucos técnicos que conseguem
dominar fluentemente o idioma. Não dá para chegar na Espanha falando
portunhol. Isso traz um preconceito. O argentino e o chileno não tem
essa dificuldade. Às vezes, o treinador brasileiro quer chegar em
determinados locais e colocar sua cultura, sua forma de ver futebol.
Acho que tem de ser o contrário, tem que saber onde está pisando, quais
são os costumes. São alguns cuidados a que o treinador tem que estar
sempre atento.
ZH — Técnico tem que ser amigo de jogador ou conquistá-lo por seu conhecimento tático?
Enderson —
Este é o principal objetivo de um treinador, não é? A gente até pode
ter com um atleta como amigo, agora ou futuramente. E eu tenho vários
exemplos disso. Mas os jogadores não têm a obrigação de gostar do
Enderson para que tenhamos uma boa relação profissional. É muito
importante que a gente conquiste o respeito desses atletas. Não é o fato
de gostar, de ser parceiro, de ser amigo, de estar no dia a dia, mas
ter parceria no sentido de ter respeito, cumplicidade em cima de buscar
vitórias e conquistar. É isso que eu busco com eles.
ZH — Jogador brasileiro gostar de treinar parte tática? O que se diz é que o jogador brasileiro só gosta de jogar ...
Enderson —
Eu acho que, nos últimos anos, o futebol brasileiro tem desenvolvido
jogadores com muito mais interesse por isso. Antigamente os jogadores só
se preocupavam em jogar. Hoje, são muito mais inteligentes em questões
táticas e técnicas, são muito mais abertos. Nos meus treinos, faço
atividades táticas e técnicas que possam ser motivantes. Hoje, nosso
jogador está muito mais tático, entende muito mais as variáveis. Mas, no
aspecto técnico, temos que melhorar. Tem-se a ideia de que jogador
brasileiro é muito técnico. Costumo falar que é muito habilidoso. Na
eficiência, por vezes, o europeu nos supera.
ZH — Você se considera um treinador obsessivo por conquistas?
Enderson —
Não faço projeções para daqui a três ou seis meses, mas para o próximo
jogo. Eu tenho um lado muito competitivo, quero ganhar sempre. Quero que
a gente possa merecer a vitória, essa é a cobrança que eu faço aos
jogadores. Que o torcedor possa ver das arquibancadas e cadeiras um time
que está merecendo ganhar. Porque, num jogo nem sempre o melhor vence.
Mas temos que mostrar que merecíamos a vitória. Eu tenho obsessão por
vitórias. É o que nos faz conquistar títulos.